Naturalmente Bonita

Quem é você por trás de um @?

O recurso da repetição é poderoso e tem a capacidade de gerar conceitos. Essa noção é fundamentada em todas as coisas que você sabe hoje sobre o mundo, as pessoas que você ama, as pessoas que você nem conhece e até sobre você. Você aprendeu o que é o preto e o branco, o que seria o certo e o errado, o que cada palavra significa e como ela se aplica a uma bagagem que é só sua e depende de milhares de fatores.

A cultura é viva, depende do tempo, espaço e principalmente das pessoas, por isso o que você sabe não é necessariamente um verdade universal em relação a tudo, é somente o quadrado que a sua janela do trem pode te mostrar durante a viagem. E muitas vezes a sua vista é diferente da de quem está bem ao seu lado.

Viver em sociedade com responsabilidade, respeitando o espaço, a particularidade e o DIREITO do outro de ser quem se é deveria ser premissa básica daqueles que se dizem pessoas de bem. Afinal, o que é ser do bem, senão fazê-lo?

A construção de um indivíduo empático passa primordialmente pela sensibilidade de reconhecer que existem realidades diferentes das suas, que existem corpos diferentes dos seus, que não estamos todos no mesmo barco e que a dor não é um sentimento regulamentado, que pudesse ser acolhido ou vivenciado de forma padrão.

E por falar em padrão, o que você sabe sobre ele?

Nascer e crescer mulher negra em uma sociedade racista e sexista é lutar constantemente contra violências de diversas formas, inclusive as simbólicas. Desde muito novas, meninas negras escutam sobre como os seus cabelos naturais são “ruins”, “mal cuidados”, “feios”, ou “errados”, por exemplo. E essa mensagem não some ao longo do tempo, ainda que se compreenda a potência racista nessas falas, a mulher negra segue lidando com os gatilhos dessas violências em sua vida adulta.

Então você que lança comentários como esse, mesmo que de forma “despretenciosa”, através de publicações em redes sociais, é sim responsável por rememorar todas as dores, desde os xingamentos, opressão, o não-pertencimento, submissão a procedimentos químicos, apagamento histórico, distanciamento da ancestralidade e muitos outros. A sua palavra é instrumento de dor, ao passo que resgata uma vivência violenta que se tenta superar.

Quem é você por trás de um @?

Há muito tempo já passamos da fase de acreditar que a internet é uma terra sem leis. As angústias que você provoca online afetam pessoas reais, as alegrias que você compartilha dão energia a pessoas reais, os desabafos que você divide sensibilizam pessoas reais e, não menos importante, os crimes que você venha a cometer também terão impactado pessoas reais, você precisará ser julgado em condições reais e as consequências dessas atitudes recairão sobre uma vida completamente real.

Além disso, já parou para pensar no quão egocêntrico é achar que a sua régua para a dor é capaz de dizer o que outra pessoa deveria ou não sentir? Especialmente sobre uma dor que você nem conhece.

Nesse trem, você não pode sentar na cadeira de outra pessoa e saber exatamente o que ela viu e viveu durante a viagem, mas lhe cabe, no mínimo, respeitar as histórias que ela conta ao desembarcar, porque essas histórias representam vida e importam.

Seja na internet a pessoa de bem que você diz querer ser fora dela, afinal de contas, da mesma forma que o seu perfil é alimentado e guiado por alguém cuja individualidade merece ser celebrada e respeitada, à sua frente estão pessoas (não somente perfis) exatamente com os mesmos direitos.

Lembre-se que não se pode ser do bem fazendo mal ao outro.

Joicy Eleiny

Joicy Eleiny, pernambucana nascida no interior e morando na capital. 21 anos, mulher negra, crespa e LGBT compartilhando empoderamento e provocando discussões acerca de suas lutas principalmente atra...

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