Naturalmente Bonita

Quais Fantasias Não Usar no Carnaval

Chegamos no mês do Carnaval e com ele surgem os bloquinhos de rua, trios elétricos ensaios pré-Carnaval e mais um monte de coisas que envolvem estar cheio de glitter curtindo essa época tão gostosa do ano.

via GIPHY

Se você acompanhou minimamente as redes sociais nos últimos anos, já deve ter visto muitas discussões sobre fantasias ofensivas, racistas e homofóbicas no Carnaval e as opiniões sobre o assunto são diversas. Há quem diga que ninguém pode usar mais nada, ou que estamos sendo uma geração chata demais que reclama de tudo, mas hoje eu vou te mostrar que não é frescura e você pode sim curtir o Carnaval sem ofender ninguém. A não ser que você seja preconceituoso demais para isso, né? 

Existem Fantasias Ofensivas?

Por incrível que pareça, sim! Existem fantasias que são muito ofensivas e eu vou explicar os motivos das mais básicas e usadas durante a folia. 

Nega Maluca

O próprio nome da fantasia já diz muito e essa caracterização reforça todos os estereótipos racistas possíveis com relação a mulher negra. O “look” consiste em fazer um Black Face fazendo referência a uma mulher negra, geralmente com roupas curtas e chamativas, corpo também pintado de preto ou com uma segunda pele preta, rosto extremamente caricato dando destaque aos lábios enormes e vermelhos. A própria personificação do racismo e da ridicularização das características negras. 

Se você não sabe de onde veio a ideia de se pintar dessa maneira que chamamos de Black Face, segue um pouco de história:

Reprodução de um poster de um minstrel show em 1900, de William H. West

O Black Face (rosto negro) surgiu a mais ou menos 200 anos e foi criado para ridicularizar pessoas negras nos teatros unicamente para entretenimento de pessoas brancas; ele já foi considerado arte nacional americana, se tornando um gênero de teatro e tendo exibição em horário nobre! Além dos estereótipos na estética, os atores brancos que usavam black face tinham comportamentos exagerados em suas peças teatrais de humor para fazer referência ao comportamento de pessoas negras, além de ridicularizar seus sotaques. 

Cocar Indígena

Há quem diga que usar o cocar indígena é homenagem, mas vamos parar pra pensar, existe algum tipo de preocupação com o genocídio da população indígena ou respeito a eles enquanto povo durante outras épocas do ano? Temos algum tipo de mobilização em massa para o fim do extermínio desse povo? As representações indígenas que ocorrem nesse período sempre estão ligadas a sexualização por conta da nudez ou a ridicularização pela forma como eles falam, então isso está muito longe de ser uma homenagem ou troca de cultura. 

É verdade que no Brasil, praticamente todos tem sangue negro ou indígena, mas isso não significa que automaticamente o racismo que está baseado na estética desses dois povos vai desaparecer. 

Para dar uma explicação sobre o assunto, deixo abaixo o vídeo de Katu, uma mulher indígena que produz conteúdo para a internet e que pode falar com total propriedade sobre isso:

E para finalizar, deixo a opinião de outra indígena, Ka’Ayguá, sobre esse assunto: 

“Eu penso que tudo o que fazem no Carnaval com nossos adereços é uma grande falta de respeito com nossa história e nossa cultura. As pessoas falam que estão nos “homenageando” mas sequer sabe a importância do cocar, grafismo e tudo que tá vestindo. Falam que estão nos homenageado mas segue destilando racismo e nos estereotipando cada vez mais, nos colocando sempre no papel de ser folclórico, que ainda não evoluiu, que ainda anda pelado e não fala português.

De fato tem povos que vivem assim hoje em dia, mas vale lembrar que o povo indígena é diverso e hoje em dia estamos em outros contextos, até por que, 2020 né? Eu fico chocada quando estou em algum lugar e vejo alguém se fantasiando de índio; me sinto desrespeitada! Como se minha cultura e minha história não fosse nada pros não indígenas.”

Transsexuais ou Travestis

Outra coisa que ocorre muito no Carnaval são homens fingindo ser mulheres, imitando gays afeminados e travestis de forma pejorativa. Temos inclusive blocos onde todos os homens usam “roupas de mulher” para entrar na folia. Em contrapartida, vivemos no país que mais mata pessoas LGBTQI+ no mundo. Sendo assim, só é aceitável fingir ser gay para ser motivo de risos no carnaval? E os outros dias do ano? Como fica? 

Eu convidei a Sasha Vilela, que é travesti, publicitária e maravilhosa para falar um pouco sobre o assunto:

“Pra mim é bem contraditório o fato de homens se fantasiarem de mulher no carnaval ou em qualquer oportunidade que surja pra se vestir de algo, e quando isso ocorre a primeira frase que vem da boca dessa galera e EU SOU TRAVESTI, e NÃO pessoal, travesti não e fantasia. Nós estamos falando de mulheres historicamente marginalizadas e que sofrem constantemente por serem quem são. Particularmente acho extremamente ofensivo e com zero tom de homenagem (como já ouvi isso sendo dito, acredita?!) quando isso acontece, pois mostra o quanto nossa classe ainda é vista como marginal, piada, com olhar de deboche por essa galera, não somos fantasias, somos seres humanos e merecemos o máximo respeito por sermos quem somos.”

Tá, então eu não posso me fantasiar de mais nada? 

Pode sim! Existem MUITAS opções de looks e fantasias para o carnaval que inclusive estarão aqui no blog para você curtir essa época linda sem racismo, preconceito ou estereótipos. 

Se quiser conferir alguns looks, clica aqui que Joicy já deixou dicas e fica de olho que vem mais por aí!

Luciellen Assis

Luciellen é baiana, de Feira de Santana. Aborda temas, em seus canais, que variam entre estética e beleza negra, moda, autoestima, empoderamento e relações raciais.

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