Naturalmente Bonita

Gordofobia x Saúde – Até Quando?

Como mulher gorda, a gordofobia faz parte do meu cotidiano. Seja por comentários dos outros ou por questões de acessibilidade, ser gorda sempre é uma questão, uma vez que estamos em uma sociedade gordofóbica, que define o outro como fracassado só por ter um determinado tipo de corpo. Dentro de toda luta anti gordofobia, um tema que me abala bastante é o tanto que a saúde é sempre colocada em cheque quando somos gordos.

O principal argumento de uma pessoa gordofóbica é que quem é gordo precisa emagrecer pela saúde, mesmo sem a pessoa ser da área médica e/ou ter sua opinião solicitada. O que essas pessoas não entendem, e nem querem entender, é que esse apontamento só faz com que a pessoa gorda se afaste ainda mais de ter hábitos bons para a saúde de verdade, aquela que não se mede pelo corpo. Isso porque o apontamento vem sempre seguido de alguma receita mirabolante ou remédio devastador para a pessoa perder rápido os “quilos indesejados”.

Será mesmo que esses métodos de perda de peso são bons pra nossa saúde?

A resposta é: não! Eu inclusive já usei de medicação para emagrecer há alguns anos. Realmente perdi muitos quilos em pouco tempo, mas o resultado para minha saúde foi devastador. Eu não tinha fôlego nem para caminhar, tinha tonturas diariamente em qualquer atividade, morria de dor de cabeça e de estômago. Mesmo estando pelo menos 10kg mais magra do que o peso inicial antes do uso do remédio, estava completamente sem a saúde e energia que tinha antes, mais gorda. Ah! E depois que parei o remédio? Engordei o triplo do que o peso de antes.

Relacionar o corpo gordo, especialmente de mulheres, a um corpo não saudável é apenas uma forma que a estrutura social encontrou de dominar corpos femininos o tempo inteiro. É uma forma de dominar nossa vivência, controlando o que comemos o tempo inteiro. Se o gordo come salada: “aposto que tá fazendo dieta, não vai conseguir nunca emagrecer, credo”. Se o gordo come uma fatia de pizza: “por isso que tá gordo, nojento”. O controle acontece 24h por dia, 7 dias por semana.

E a gordofobia médica? Acontece mesmo?

Sim, mais do que pensamos. Muitos médicos são negligentes à saúde da pessoa gorda. Perdi a conta de quantas vezes cheguei no consultório com minha sinusite atacadíssima e saí com uma receita de remédio pra emagrecer e encaminhamento pra bariátrica. São inúmeras vezes que, antes de ser examinada, o médico já tinha o diagnóstico pronto na ponta da língua: “está doente porque é gorda!”.

Um bom exemplo recente disso aconteceu com meu namorado, que é magro, e teve um problema no joelho causado por repetição de exercícios na academia. Ele foi ao médico relatando a dor. O médico o examinou por completo, pediu vários exames, radiografias, ressonâncias até descobrir o problema. Quantas vezes pessoas gordas com dores em articulações foram atendidas da mesma forma? Quantas vezes o diagnóstico pra elas foi o “emagrece que passa” ao invés de pesquisar a fundo a causa da dor? E se fosse uma trombose, uma fibromialgia… nunca saberíamos por conta dessa estrutura repleta de gordofobia que nos nega atendimento básico.

O clichê de nem todo gordo é doente e nem todo magro é saudável é real. Todo corpo precisa se alimentar de forma equilibrada, não só o gordo. Todo corpo precisa se exercitar, não só o gordo. Todo corpo precisa ser cuidado e examinado por profissionais, não só o gordo.

Precisamos normalizar nossos corpos para termos direito a tratamento de saúde digno e efetivo. Se o gordo estiver doente, seja pelo peso ou não, nenhum profissional de saúde ou pessoa física tem o direito de diminuir a dor ou de fazer chacota com o corpo dessa pessoa. Exigir respeito é essencial para vivermos em uma sociedade mais igualitária e com menos gordofobia.

Ana Luiza Palhares

Sempre muito comunicativa, Ana Luiza nunca teve vergonha de mostrar quem é e o que pensa. Adora escrever textos sobre moda inclusiva e empoderamento feminino, hoje produz looks do dia plus size, rese...

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