Naturalmente Bonita

Eco-Fashion Week 2018

Entre os dias 15 e 17 de novembro estive na segunda edição da Brasil Eco Fashion Week, maior evento de moda e de sustentabilidade da América Latina, que reúne marcas, criadores e empresários com a proposta de fazer moda de uma forma que respeita as pessoas envolvidas no processo de produção e o meio ambiente.  

Brasil-Eco-Fashion-Week

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Com o tema Inovação e Diversidadea programação contou com desfiles, oficinas e palestras, além de um showroom com a presença de 50 marcas de vestuário, calçados e acessórios, de todo o país.

A indústria da moda é uma das mais poluentes do mundo e tem profundos impactos socioambientais:

– Hoje 36 milhões de pessoas trabalham em situação de escravidão.

– Em São Paulo, existem mais de 16 mil oficinas clandestinas.

– No Brasil, são descartadas 170 mil toneladas de lixo têxtil anualmente.

– A fabricação de uma calça jeans consome 11 mil litros de água, enquanto 2,5 bilhões de pessoas não têm acesso a água potável no mundo.

Diante desses dados e das denúncias graves envolvendo grandes marcas em trabalho escravo,  e de tantas notícias que revelam que estamos caminhando cada vez mais rápido rumo ao esgotamento dos recursos naturais, é cada vez mais necessário e urgente refletirmos sobre o nosso próprio consumo e apoiarmos quem busca produzir moda que gera impacto positivo no mundo.

Nesse contexto, surge a moda consciente, ou seja negócios comprometidos com a transparência e com o desenvolvimento social e ambiental, em todos os estágios possíveis da produção.

Brasil-Eco-Fashion-Week

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Vocês tem alguma ideia do que acontece com o tecido do pára-quedas, que é um equipamento de segurança, quando acaba o seu prazo de validade ou já se perguntaram o que acontece com os guarda-chuvas quebrados, abandonados pelas ruas da cidade? Graças a alguns empreendedores que tive a oportunidade de conhecer, alguns desses materiais, que seriam descartados, são colhidos por cooperativas, formadas por mulheres em situação de vulnerabilidade e são transformados em peças de vestuário e acessórios, como casacos, vestidos e mochilas.  Materiais de construção e restos de obra, que poderiam parar em aterros e lixões, também são usados como matéria-prima de brincos, colares e outras peças e projetadas por mulheres, muitas delas sobreviventes de violência doméstica. Esses são alguns dos exemplos de como é possível ressignificar recursos que já existem (portanto não precisam ser produzidos) para reduzir o impacto da produção de novos materiais e ainda gerar renda e autonomia para pessoas que precisam reconstruir suas vidas.

Brasil-Eco-Fashion-Week

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Além dos itens feitos com material de reuso e de iniciativas que fomentam a economia solidária e justa, vi peças incríveis criadas com materiais orgânicos e biodegradáveis, extraídos de forma responsável, como algodão orgânico e outras fibras naturais. E não pensem que moda sustentável precisa ser monótona e monocromática, baseada exclusivamente no tingimento natural com folhas e flores em tons que variam do creme ao terroso (embora essa seja uma tendência consolidada, que faz muito sucesso nesse meio, já que o tingimento de tecidos é altamente poluente para a natureza).

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Empreendedores no setor da moda sustentável estão pesquisando e investindo em inovação e em tecnologia para otimizar o uso dos recursos, com o objetivo de atender um público cada vez maior e mais exigente e desenvolver soluções que possibilitam uma moda que vai desde a marca de sapatos veganos que fatura mais de R$ 1 milhão ao ano a marca de biquíni e a calcinha absorvente reutilizáveis, desenvolvidas por financiamento coletivo. Tem também peças criadas com semente de açaí, roupinhas de bebê de algodão pima, vestidos de alta costura para festas sofisticadas, além de roupas customizadas, feitas com impressoras 3D, para atender as próximas gerações. No evento, também teve espaço para as mulheres de culturas tradicionais, como as indígenas, que resistem criando brincos, colares e peças utilitárias, para preservar a cultura do seu povo.

  

Carlos Bacchi
Brasil Eco Fashion Week
SP,17/nov/2018
foto: Marcelo Soubhia/Fotosite

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É tanta novidade incrível, que desperta os nossos impulsos consumistas e da aquela vontade de trocar todo o nosso guarda-roupa, feito com matéria prima poluente e mão de obra escrava, por peças ecológicas e sustentáveis. Mas ao acompanhar as discussões sobre moda consciente, a gente entende que não faria sentido descartar todas as peças que temos, pois não tem nada de sustentável nessa atitude. Fora que os preços ainda não são tão acessíveis assim, em alguns casos, especialmente no das peças feitas a mão. Aliás, embora eu quisesse comprar inúmeros itens, fiquei feliz com o meu autocontrole e com as minhas duas aquisições, pautadas pela necessidade: uma calcinha absorvente (para complementar o uso do coletor menstrual, que em dias de fluxo mais intenso mancha as minhas roupas) e uma roupinha de bebê, para presentear uma amiga.

Refletir sobre o nosso consumo de moda e evoluirmos para um consumo mais consciente, que valoriza pequenos produtores e o trabalho criativo e artesanal, é tão válido e necessário quanto questionar as marcas que produzem as nossas roupas e a própria política e políticas públicas que impactam o setor.

Após três dias de evento, saí inspirada. Tudo indica que apesar de termos um mercado incipiente, as  possibilidades são amplas e mostram que existe um enorme potencial a ser desenvolvido pela indústria têxtil e pela moda sustentável e iniciativas para compartilhar essas informações, para que as pessoas, possam cada vez mais praticar o consumo de moda consciente.

Clique aqui para conferir a cobertura completa que fiz do evento, no Instagram.

Criou o Blog das Cabeludas, Crespas e Cacheadas em 2008 e é uma das idealizadoras da Marcha do Orgulho Crespo Brasil (2015). Ambas iniciativas tem objetivo de empoderar mulheres a aceitarem seu cabelo natural. É bacharel em Relações Internacionais, Vegana e especialista em Marketing Digital.

Criou o Blog das Cabeludas, Crespas e Cacheadas em 2008 e é uma das idealizadoras da Marcha do Orgulho Crespo Brasil (2015). Ambas iniciativas tem objetivo de empoderar mulheres a aceitarem seu cabelo natural. É bacharel em Relações Internacionais, Vegana e especialista em Marketing Digital.

Nanda Cury

Criou o Blog das Cabeludas, Crespas e Cacheadas em 2008 e é uma das idealizadoras da Marcha do Orgulho Crespo Brasil (2015). Ambas iniciativas tem objetivo de empoderar mulheres a aceitarem seu...

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