Naturalmente Bonita

Cabelo Crespo e Autoestima

O cabelo sempre esteve muito ligado a autoestima da mulher e a ideia de cabelos longos, sedosos, brilhantes e com muito balanço fez parte dos sonhos de muitas meninas negras justamente por ser algo aparentemente inalcançável para nós. Eu me recordo bem de como desejava ter os cabelos lisos durante a infância e adolescência para ser aceita no colégio, já que os elogios eram sempre voltados a meninas com cabelos lisos e longos, mas o meu não era assim. Meu cabelo é crespo e para estar “arrumado” mainha alisava toda sexta-feira com ferro e pente quente. Eu detestava passar por isso, mas acreditava que era necessário porque meu cabelo “não era bom”, então o único jeito de arrumar era alisando.

cabelo crespo

Hoje já com o cabelo natural depois de ter passado pela transição capilar (em um outro texto falarei mais sobre esse período), percebo que nós naturalizamos por anos uma coisa extremamente cruel e nociva à saúde física e psicológica de crianças e adolescentes e que ainda permanece na vida de mulheres adultas hoje em dia. Falar sobre cabelo para mulheres negras não é um assunto simples porque não tem relação apenas com o cabelo. O negócio é bem mais profundo do que as pessoas geralmente imaginam porque está ligado a anos de negação e auto-ódio.

Se quiser saber mais sobre transição capilar, pode conferir aqui.

cabelo crespo

Entender a beleza natural do cabelo crespo e cacheado, dando maior ênfase ao cabelo crespo, que é ainda mais rejeitado por não ter cachos perfeitos, sedosos e brilhosos dá trabalho porque nosso olhar não foi acostumado a isso. Mulheres negras não eram e ainda não são vistas como padrão de beleza e consequentemente nosso cabelo também não é. Exatamente por isso que pessoas crespas como eu, Joicy (Tipo4) e Maraisa (Blz Interior) passamos por diversos ataques na internet por conta das nossas características físicas como cor de pele e tipo de cabelo. A exaltação do cabelo natural existe desde que ele não seja volumoso, nem tenha frizz, ou seja, uma cabelo ondulado ou cacheado mais aberto. No seu primeiro texto aqui, a Joicy falou sobre como o CRESPO É LINDO!

Falar sobre o cabelo da mulher negra tem relação direta com aceitação, empoderamento, enfrentamento ao racismo, ao ódio gratuito e principalmente de resgate a  história de todo um povo que foi apagada pelas marcas da escravidão que acabou a pouquíssimos anos atrás e que ainda é um problema muito mal resolvido no Brasil, já que as pessoas tratam como algo que aconteceu a muito tempo como se tivesse ficado no passado apenas, não levando em consideração a forma como a liberdade foi dada aos escravizados e as consequências que esse descaso causou a nossa geração e uma das marcas desse problema é justamente o racismo velado disfarçado de opinião onde existe uma preferência e aceitação infinitamente maior a tudo que for branco e em contrapartida, a demonização e marginalização do que é negro. Não é apenas falar de cabelo, mas falar de dores, apoiar-se e perceber que a luta é coletiva e constante para que haja uma mudança.

cabelo crespo

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Desmistificar simbologias da cultura negra e retirar conceitos racistas do nosso cotidiano é uma das maneiras mais simples de se lutar contra o racismo. Entender que o cabelo crespo ou cacheado não precisa ser domado, nem ficar sem frizz, que nem todo cabelo é brilhoso mesmo estando saudável e que ele definitivamente não precisa ser definido são coisas aparentemente simples, mas que fazem uma diferença enorme quando falamos da estética do cabelo negro. Essas “necessidades” com relação ao cabelo crespo e cacheado existem hoje justamente por conta de uma política de embranquecimento onde se faz necessário que  nossas características negras sejam menos fortes ou apagadas se necessário e isso não está ligado apenas ao tom de pele, mas também ao cabelo, que é uma das características e símbolo de resistência mais forte do povo negro. A gente cresceu tendo medo do volume, do cabelo “duro” (que na verdade é muito macio), da falta de balanço e de brilho porque o racismo criou isso.

cabelo crespo

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Hoje o movimento de autoconhecimento e resgate da ancestralidade negra é gigante através da internet e tem crescido e se fortalecido mais a cada dia no Brasil e no mundo, e fazer parte de um movimento tão lindo quanto esse é maravilhoso e inspirador. O trabalho ainda vai demorar para acabar porque é muito difícil mudar o nosso pensamento, quanto mais o de outra pessoa. Mas continuaremos usando nossas vozes para propagar a mensagem de amor próprio, da aceitação e do antirracismo aos quatro cantos.

 E se você leu esse texto mas não é uma pessoa negra, não significa que não pode fazer algo com relação a isso. A luta pelo fim do racismo e qualquer outro tipo de preconceito é coletiva e você também faz parte dela.

luciellen-assis

Luciellen é baiana, de Feira de Santana. Aborda temas, em seus canais, que variam entre estética e beleza negra, moda, autoestima, empoderamento e relações raciais.

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Luciellen é baiana, de Feira de Santana. Aborda temas, em seus canais, que variam entre estética e beleza negra, moda, autoestima, empoderamento e relações raciais.

Luciellen Assis

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